quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Fênix

Esses dias lembrei deste blog, há muitos anos esquecido. Voltei aqui porque queria mostrar um texto para alguém que evocou meu lado criativo. Um amigo, quase um irmão gêmeo de tão parecido comigo. Alguém que a vida aproximou e que gostaria que nunca se afastasse.
Eu estava tranquila, perfeitamente adaptada (ou não) à rotina casa - trabalho - filhos e de repente eu estava com um turbilhão de ideias de todo tipo na minha cabeça.
De uma hora para outra o pensamento deixou de ser linear e encontrei um lado adolescente que eu achava que nem sequer existia mais.
Comecei a colocar no papel para não esquecer, para não surtar, para entender o que estava acontecendo e acordei... Acordei para toda a vida que existe ao meu entorno.
Voltei aqui e acabei lendo tudo novamente...
Ele fez eu me questionar se eu deveria voltar a escrever... Talvez eu deva.
E não... eu não estou apaixonada por ele.... Amigo do coração, só amigo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A velha

Uma imagem, uma pessoa, um lugar... eis o resultado

Coitada da velha, andando sozinha,
na rua deserta em plena madrugada.
Coitada da velha, mal vestida e suada,
esperando o ônibus, em pé na calçada.

No bolso, o dinheiro, uns poucos trocados,
nas mãos dois saquinhos já muito rasgados.
Sozinha no mundo, num beco escuro,
repensa sua vida e se vê sem futuro.

Coitada da velha, que tanto amou e já foi amada,
que trabalhou tantos dias, nesta longa jornada.
Hoje espera sentada, uma ajuda, um afago,
engolindo suspiros e evitando lágrimas.

Lá vai ela descalça, devagar, cabisbaixa,
com suas sacolinhas atravessando a praça.
Abandonada, sem rumo e apesar da má sorte
ela nunca desiste de lutar contra a morte.

sábado, 22 de junho de 2013

Carta aos colegas médicos

Caros colegas,
                Sou médica há 11 anos, atualmente trabalho como reumatologista em um centro de saúde (SUS) e também atendo pacientes com convênio de saúde no consultório. Tenho orgulho da minha profissão, apesar da nítida desvalorização que vejo refletida nos baixos valores pagos pelos governos e convênios de saúde, as péssimas condições de trabalho oferecidas pelo sistema público e o consequente descrédito da população na nossa capacidade resolutiva.
                Tenho acompanhado as notícias na imprensa e os movimentos nas redes sociais. Ontem à noite, foi com profunda tristeza que ouvi a presidente Dilma Rousseff reiterar em seu discurso em cadeia nacional que para resolver os problemas da saúde traria 6000 médicos do exterior. Todos nós sabemos que esta é uma medida meramente política que não acarretará em nenhuma mudança benéfica para o SUS.
                Nas redes sociais, muitos colegas clamam por greve e por manifestações na rua para buscar melhores condições de trabalho, salários dignos e o cumprimento dos acordos de pagamento para os colegas dispostos a atuarem em cidades menores. Embora eu concorde plenamente com estas reivindicações, temo que neste momento não o povo não se posicionará ao nosso lado se optarmos pela greve. O público atendido no SUS enxerga a realidade que chega a eles. Não é incomum ouvir frases assim nas UBS: “não tem consulta porque não tem médico”, “não adianta nem tentar porque o médico já foi embora”. Somos vistos como vilões porque “não trabalhamos”, “não cumprimos a carga horária”, “nem sequer olhamos a cara do paciente”. O paciente não percebe que somos obrigados a atender um número tão grande de pessoas por hora e que por isso somos obrigados ou a diminuir a qualidade do atendimento ou a permanecer horas extras no trabalho sem sermos remunerados por elas. O paciente não sabe que lutamos contra a falta de medicamentos na rede básica ou que o seu diagnóstico ou tratamento realmente depende daquele exame que o SUS não disponibiliza ou que vai levar mais de um ano para ser realizado. O povo não conhece outra realidade que não seja a de hospitais e postos de saúde sucateados, sem macas e equipamentos e com salas de emergência superlotadas. Aliás, muitos devem até pensar que as emergências estão superlotadas porque não há médicos para atender a todos e resolver os problemas e por isso as pessoas vão se acumulando nos corredores.

                Tenho absoluta certeza que não somos mercenários como alguns induzem o povo a acreditar. Até porque, se quiséssemos sê-lo a primeira medida seria mudar de profissão.  Agora não é hora de greve, é hora de mostrar quem somos e nosso valor. Acredito que está na hora de virar o jogo e mostrar à população o que ela realmente merece: um atendimento médico de qualidade. Atender bem nos postos de saúde, mesmo que isto signifique terminar o horário predeterminado sem ter atendido todos os pacientes marcados. Aqueles que não forem atendidos podem até se irritar num primeiro momento, mas logo estarão clamando junto às autoridades o direito de serem atendidos com a mesma atenção e respeito. Devemos mostrar que as nossas reclamações e as deles (povo) são exatamente as mesmas: todos querem um sistema público de saúde de qualidade. É nossa obrigação ensinar os números das ouvidorias das prefeituras e secretarias da saúde para que as reclamações sejam feitas para os reais responsáveis pelo mau funcionamento do SUS. 

domingo, 23 de outubro de 2011

Trapézio voador!

A primeira vez a gente não esquece!! hahahaha

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Cape town - primeiro relatorio

E com imensa satisfação que vós informo que nossa guia da CVC e grAvataiense, o que permitiu muitas risadas no passeio de hoje (incluído no pacote). Minha mãe achava que seria como foi na Turquia, com guias com bom conhecimento da cultura e da história local, mas não foi bem assim. Ao menos ela não ira conosco a johannesburg!
Na verdade, as coisas começaram a ficar divertidas na fila do checkin em Guarulhos. Um grupo de mulheres na nossa frente estava conversando sobre suas viagens, quando uma delas, empolgada contou:"Ano passado, nessa época a gente foi pra China, foi mto legal, subimos na muralha e visitamos a cidade perdida...". (PERDIDA????? Não seria a cidade proibida?)
Será que depois de visitar a cidade perdida ela nao ficou numa duvida cru-de-li-ca de qual destino escolher neste ano???
Já na sala de embarque, fica a duvida: se o embarque só começa daqui a uma hora, porque já tem fila na frente do portão??? Aguardamos a fila sumir e fomos dos últimos a entrar no avião. Algum tempo depois, pronunciei minhas primeiras palavras em inglês:"do you have some wine, please?" "red wine, please!". E foi assim que provei meu primeiro pinotage.
No rotulo havia um aviso importante:"don't drink and walk on The road. You may be killed." que seja... Nao to na rua, to num avião... Posso e vou beber! 2 garrafas!
Chegamos em cape town e a primeira coisa que aprendi e que jetlag da dor de cabeça de verdade. Logo eu que nem tive soroche, chegar aqui e ser vencida por esse maldito fuso horário... Tive que dormir...
Mas voltemos a Gravataí (hahahA). A guia, anunciando o almoço: Já vou antecipar o menu ate porque com um grupo grande sempre e melhor agilizar, ate para ir mais rápido. (agilizar serve para alguma outra coisa e nao estou sabendo???
Outra expressão que ela adora: vcs todos tem que cumprir o horário ate porque o ANDOR (com o mesmo) da excursão depende disso. Ela usou 3 vezes essa palavra!!! Eu juro que procurei, mas nao havia nenhum andor no onibus, nem com santo, nem sem santo!
Para que ninguém diga que ela nao explicou, aí vai a terceira: "vou repetir novamente o passeio de amanha, pra todo mundo entender como vai funcionar..." (esse nos nao faremos, já tratamos com um guia local!)
Hoje fiz minha primeira foto abraçada num bicho. Nao foi num guepardo como prometido, mas já e alguma coisa... Sentei numa foca, abracei a foca e a alimentei com peixe fresco!!! Um senhor foca!!! Muito legal!
para terminar, comunico que a África do Sul nao e uma maravilha. Mesmo aqui temos problemas bem difíceis para resolver, como por exemplo, o que tivemos no almoço de hoje...
A guia anunciou:"Hj no almoço terá primeiro uma salada e depois, no prato principal tem um problema: nao e como ontem que tinham as 3 opções: carne, frango ou peixe. Nesse restaurante o prato e único! Meia lagosta, camarões e um file de peixe para cada um.
Já pensou se todos os nossos problemas fossem como esse???

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A arte de sentir-se viva

Foi forte. Tão forte quanto o barulho de um trovão numa tempestade, tão forte como as ondas de um mar revolto, mas tão inspirador como o cruzar das pernas num tango. Assim eu sonhei noites de lua cheia e noites escuras, com tua imagem tão viva e  uma realidade tão distante. Persegui este meu sonho sem nem mesmo saber a razão. e assim te conheci e soube que eras real. Cada momento, cada detalhe, cada semelhança dentre tantas diferenças. Insegurança? Não. Certeza.

Respirei fundo mais uma vez, mas foi tão inútil quanto nas últimas tentativas. Dentro do meu peito, meu coração saltava acelerado, seguido pelo ritmo do tremor dos meus dedos. Nenhuma posição parecia confortável. Repassei cada passo e entrei. Senti os olhares na multidão. Desconfiança, curiosidade, entusiasmo, ansiedade.

Encostei as mãos no trapézio e subitamente tudo silenciou. Não havia mais nada além de nós dois. A energia fluia como nunca e eu tive certeza que tudo daria certo. Foi como nos velhos tempos. O ritmo da música como fluido vital. Esse é o momento em que me sinto mais segura. Os minutos em que tudo se resume na alegria de sentir-se viva novamente.


sábado, 25 de junho de 2011

Numa sexta-feira à noite

Camila chegou na hora exata no local onde haviam combinado. Era um edifício sem muito luxo numa rua tranqüila, onde um pequeno jardim enfeitava o trajeto entre as grades e a porta de entrada. Atravessou o hall e se postou em frente ao grande espelho. "Porque será que meu cabelo está sempre desajeitado?"


Naquele dia em especial estava irritada. Não se sabe se por cansaço ou se por efeito da TPM, mas era um fato: Camila só não havia brigado com o namorado porque não tinha um. Foi assim, como uma avalanche em formação, que tocou a campainha do apartamento 403 naquela sexta-feira à noite. No fundo não queria estar ali, mas sabia que ver seus amigos lhe faria bem.


Karen e Marcelo haviam retornado da Europa recentemente e suas fotos da viagem estavam sendo projetadas enquanto o jantar não ficava pronto. Amsterdã. Como sentia falta de lá. Os parques, os bares, as praças... e Werner. Eram dele sem dúvida as melhores lembranças, mas a vida seguiu em frente e ela retornou ao Brasil. Camila sentou-se no sofá e suspirou.


Grande parte das pessoas não percebeu, mas Gustavo viu as lágrimas brotando em seus olhos e tentou interferir. “Castanhas?”. Camila se virou lentamente na direção da voz até seus olhos encontrarem os de Gustavo. Verdes como os de Werner... Mas transmitiam uma energia tão oposta à de seu grande amor. “Não, obrigada.”


Werner era capaz de acalmá-la só com o olhar. Com ele Camila sentia-se protegida e amada. Os olhos de Gustavo não eram assim. De alguma forma a perturbavam. Eram tão cheios de vida, de desejos e de paixão que fizeram Camila imaginá-los como um grande caldeirão borbulhante, pronto para explodir a qualquer momento. Não sabia como lidar com isso e mais do que nunca sentiu falta dos braços de Werner para abraçá-la.


Do outro lado da sala, Gustavo, encostado no marco da porta que dava acesso ao corredor, a observava curioso. Para ele, Camila parecia inatingível. Seus olhos verdes, seu grande trunfo com as mulheres, haviam falhado desta vez. Gustavo era um homem comum: não muito alto, magro, de cabelos escuros já com alguns fios grisalhos apesar da pouca idade. Para seus amigos, o que o diferenciava era seu coração de ouro, sua lealdade e sua alegria de viver.


No sofá, a inquietude crescia dentro do peito de Camila. Seus dedos apertavam uma das almofadas de cetim azul com tanta força que poderiam arrebentá-la a qualquer momento. Pensou em voltar para casa, mas este pensamento foi interrompido pela voz de Marcelo: o jantar estava pronto.


Estavam em 12 pessoas: quatro amigos de infância com seus respectivos pares, o casal anfitrião, ela e “o cara de olhos verdes”. Ela estava certa... Haviam feito de propósito... Mas quem seria ele? De onde teria surgido? Tinha certeza de jamais tê-lo visto nas festas do grupo. Não queria e nem precisava passar por tudo isso.


Revoltada, baixou a cabeça e começou a comer. Vez que outra esboçava um sorriso, na tentativa de participar da conversa. Falavam sobre os filhos. Camila jamais havia pensado em ter um. Talvez naqueles dois anos ela não tivesse pensado mesmo em nada, exceto em reencontrar Werner. De qualquer forma, sabia que se tratava de um amor impossível. Depois da promoção não poderia sequer pensar em sair do país sem ser de férias. E ele nunca demonstrou um pingo de vontade de conhecer o Brasil.


No lado oposto da mesa outro rosto pensativo ignorava a discussão, absorto em questionamentos que somente a ele interessavam. Em que estaria pensando a mulher à sua frente? Misteriosa e atraente, assim a havia classificado. Uma combinação inebriante em sua opinião, tornando impossível mudar a direção do seu olhar.


Por um longo tempo permaneceram assim, como se aquele momento pudesse durar uma eternidade. E então, bruscamente, Camila saiu do transe e levantou. Foi até a porta antes de virar-se para se despedir. Queria ter certeza que ninguém bloquearia seu caminho. Com a bolsa no ombro desceu pelo elevador, deixando escapar um suspiro de alívio assim que a porta se fechou.


Gustavo foi mais rápido. Colocou a carteira no bolso e correu os quatro andares escada abaixo chegando ainda a tempo de vê-la sair pelo portão. Gritou seu nome, mas tudo que obteve em troca foi o baque surdo da porta do carro se fechando e novamente o silêncio da rua deserta. Por alguma razão, Camila não ligou o carro imediatamente. Gustavo hesitou e por alguns instantes permaneceu ali, olhando pelo espaço entre as grades. Vencido pelo desejo, atravessou a rua e foi até o carro estacionado alguns metros à frente.


Pelo retrovisor, Camila viu um vulto se aproximando. Suas lágrimas haviam transformado a rua em um amontoado de borrões luminosos. Assustada, girou as chaves e acelerou, sem enxugar os olhos ou olhar para trás.


Gustavo parou, impotente. Não havia conseguido sequer seu telefone e estava cansado dos encontros forçados por seus amigos. Não queria que fosse assim, mas agora dependeria do destino para encontrá-la novamente.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Fim do dia... que agonia

Dona Marieta não titubeou ao ver Rosângela esperando um táxi na esquina e foi logo puxando assunto. Amigas há tanto tempo quanto a memória as permitia recordar, nunca perdem a oportunidade de se vangloriar dos feitos dos netos ou falar mal das vizinhas. “Pois é comadre, aquela dona da casa verde trocou de marido de novo...” “Essas menina de hoje não sabe mais segurá marido não...” “E a Edilene, vai ganhar quando?” “Tá de 5 mês, é menina. Jéssica ou Vitória. Ainda não decidiu.”


Se a conversa das duas fluía solta, o mesmo não acontecia com o tráfego por ali. Dois fiscais de trânsito conferiam suas papeletas enquanto as sinaleiras cumpriam seu papel, coordenando o intenso fluxo de veículos naquele cruzamento bem em frente ao hospital municipal.

Em frente ao sinal vermelho uma longa fila já estava formada. Em cada carro rostos cansados do longo dia de trabalho. No primeiro deles, um corsa branco, Ricardo escutava seu CD preferido enquanto contava os minutos para chegar em casa. Quarenta e dois segundos depois o semáforo abriu. Ricardo engatou a primeira e arrancou. Ato reflexo: Donna Marieta, que até dois segundos antes estava com dificuldades para se despedir, vira-se repentinamente e começa a atravessar a rua sem sequer olhar para os lados. Hipnotizada pela seqüencia de faixas brancas e pretas aos seus pés, não foi capaz de perceber o quanto estava próxima do carro já em movimento.


Ágil, Ricardo pisou fundo no freio, mas sua mão, que rapidamente deslizou até a buzina vacilou. Estava na frente do hospital. A dúvida cresceu em milésimos de segundo. Buzinar ali naquele local e levar uma multa como havia acontecido semanas antes com seu amigo? Ou atropelar a velha e viver o resto dos seus dias com a consciência pesada? Não teve tempo de decidir. Virou rapidamente o volante e passou a menos de 20 centímetros dela. Essa havia sido por pouco.


Dez minutos depois Ricardo entrava no elevador rezando para sua esposa não estar com mais um dos seus desejos gestacionais indecifráveis e irrealizáveis quando foi surpreendido pelo seu próprio reflexo no espelho. Definitivamente uma herança paterna não muito agradável... Seus cabelos estavam desaparecendo com a mesma velocidade que seu pai desaparecera de sua vida anos antes. Infarto fulminante. “Foi stress. – Disse o médico na época.” Era preciso dar um fim nisso tudo.


Entrou em casa. Silêncio. Ótimo. Nem sequer tirou a chave da porta. Pegou papel e caneta, deixou um recado para Mariana e correu para o estádio ainda de terno. Então ele gritou e gritou e gritou... Como se aquele fosse seu time do coração. Noventa minutos depois, com o corpo suado, a roupa amassada e 10kg a menos na cabeça voltou para casa. Neste momento a calvície não importava e dona Marieta sequer existia... Mas de um coisa ele tinha certeza: poderia finalmente ter uma boa noite de sono.